Pocket Guide (Parte I): como qualificar Impurezas Relacionadas a Peptídeos na Era das Semaglutidas?

Como qualificar impurezas relacionadas a peptídeos na era das semaglutidas: IRPs, imunogenicidade e os thresholds de EMA, FDA e ANVISA.

Desenvolvido por EmbedPress

Em resumo

  • A expansão dos peptídeos terapêuticos — com a semaglutida como caso mais visível — trouxe à tona um desafio regulatório específico: como qualificar impurezas que são, elas próprias, estruturas peptídicas.
  • Peptídeos sintéticos ficam na interface entre pequenas moléculas e proteínas e por isso estão total ou parcialmente excluídos do escopo dos guias ICH Q3A/Q3B, Q6A/Q6B e M7.
  • O endpoint crítico deixa de ser mutagenicidade e passa a ser imunogenicidade. Ferramentas in silico para pequenas moléculas (<1 kDa) não são adequadas ao propósito.
  • EMA, FDA e ANVISA convergem na centralidade da comparabilidade com o produto de referência, mas divergem em thresholds e nível de detalhamento.
  • A via MHC-II/HLA-II e células T CD4+ tem relação mecanística mais direta com a formação de anticorpos antifármaco (ADA) — o que justifica tratá-la como principal linha de evidência.
  • O maior gap regulatório: não existe critério que defina qual magnitude de diferença no nível de uma impureza é aceitável sob a ótica da imunogenicidade. A própria FDA reconhece isso expressamente.

Por que peptídeos exigem um racional próprio?

O crescimento dos medicamentos peptídicos, evidenciado pela expansão recente de peptídeos terapêuticos como a semaglutida, colocou uma pergunta no centro do desenvolvimento farmacêutico: como avaliar e qualificar impurezas que compartilham elementos estruturais do próprio ingrediente farmacêutico ativo (IFA)?

Peptídeos sintéticos ocupam a interface entre pequenas moléculas e proteínas. Por essa razão, estão total ou parcialmente excluídos do escopo de guias como ICH Q3A/Q3B, Q6A/Q6B e M7, exigindo estratégias específicas de conformidade em qualidade, segurança e eficácia. O Guideline on the Development and Manufacture of Synthetic Peptides da EMA foi desenvolvido justamente para cobrir aspectos de fabricação, caracterização, especificações e controle analítico que as diretrizes tradicionais não endereçam adequadamente.

A consequência é direta: o paradigma clássico das pequenas moléculas — limites dependentes da dose, avaliação de mutagenicidade e toxicidade geral — não pode ser simplesmente transferido para uma impureza que mantém elementos estruturais da própria sequência peptídica.

O que são impurezas relacionadas a peptídeos (IRPs)?

A EMA estabelece uma distinção particularmente útil. Impurezas relacionadas a peptídeos (IRPs) são aquelas que contêm elementos estruturais da sequência do peptídeo sintético — ou seja, pertencem igualmente à classe “peptídeos”. Já as impurezas não relacionadas a peptídeos incluem reagentes de processo e seus subprodutos, solventes residuais, impurezas elementares e potenciais impurezas mutagênicas.

As IRPs podem ter origens distintas: decorrer das matérias-primas, formar-se durante o processo de síntese ou resultar de degradação durante a fabricação ou o armazenamento. Entre os exemplos descritos pela EMA estão:

  • Estereoisômeros;
  • Sequências de deleção;
  • Sequências truncadas;
  • Sequências de inserção;
  • Produtos decorrentes de reações incompletas ou secundárias.

Durante armazenamento ou processamento também podem ocorrer oxidação, hidrólise, isomerização, desamidação, formação de imidas cíclicas, beta-eliminação e outras transformações. Agregados, dímeros e oligômeros merecem investigação específica.

Impurezas pequenas vs. IRPs: por que o risco é outro

A distinção em relação a impurezas orgânicas comuns é essencial porque as duas categorias não seguem o mesmo racional toxicológico. Para IRPs, o endpoint de preocupação é a imunogenicidade.

Escopo de qualificaçãoImpurezas orgânicas menoresIRPs (peptídeos)
ComparabilidadeAlternativa na avaliaçãoBase do racional; excedentes avaliados quanto ao risco imunogênico
Mutagenicidade (ICH M7) / genotoxicidade (ICH Q3A/B)AplicávelGeralmente não aplicável*
Toxicidade geral (ICH Q3A/B, draft EMA)Avaliação integrada de risco: correspondência com metabólitos significativos, propriedades físico-químicas, PK/ADME, similaridade, toxicidade para órgãos-alvo — ou dados in vivoGeralmente não aplicável*
Toxicidade específicaQuando necessário (sensibilização cutânea, reatividade ocular e outros)Quando necessário
Avaliação de imunogenicidadeNão centralEndpoint principal

*Em situações raras, com peptídeos muito pequenos, pode ser possível, a depender do domínio de aplicabilidade.

Como a imunogenicidade acontece

Peptídeos e IRPs são compostos por aminoácidos (AA), e cada um tem sua própria quantidade e sequência. Nas análises in silico, a sequência é dividida em “blocos” (mers). O mecanismo se desenrola assim:

  1. Alguns desses blocos podem se ligar ao HLA (Human Leukocyte Antigen) no organismo;
  2. Células T reconhecem o bloco imunogênico e são ativadas;
  3. As células T auxiliam a célula B;
  4. Há produção de anticorpos antifármaco (ADA);
  5. Os anticorpos podem induzir toxicidade e/ou perda de eficácia.

O que é imunogenicidade, no contexto de medicamentos peptídicos?

É a capacidade de uma estrutura peptídica induzir uma resposta imune. Para IRPs, geralmente maiores, a preocupação central é a imunidade adaptativa mediada por células T.

Por isso, a avaliação in silico não deve se limitar a perguntar se a impureza tem estrutura semelhante à do IFA, nem se concentrar em mutagenicidade e toxicidade geral. Uma questão mais informativa é: a diferença estrutural introduz um novo determinante imunológico, ou aumenta a capacidade de apresentação e reconhecimento em comparação ao peptídeo de referência?

Para impurezas que preservam grande parte ou toda a sequência do IFA, a análise global pode não detectar o efeito da modificação. Combinar análises global e focal permite distinguir o potencial imunogênico compartilhado daquele especificamente associado à região modificada.

O contexto regulatório: EMA, FDA e ANVISA

Os modelos regulatórios são semelhantes quanto ao peso da comparabilidade, mas diferem em thresholds e detalhamento.

AspectoEMAFDA (ex.: semaglutida)ANVISA
Base de avaliaçãoGuia geral; comparabilidade com produto de referência e avaliação individual + risco de imunogenicidadeComparabilidade e guias produto-específicos via PSGs + risco de imunogenicidadeComparabilidade com medicamento de referência + justificativa baseada no risco de imunogenicidade
Notificação>0,10%>0,1%0,1% como início da faixa de avaliação
Identificação>0,50%; se adotada comparabilidade, IRPs de 0,1–0,5% devem ser avaliadas>0,5%Caracterização estrutural (sequência de AA e estrutura secundária) de novas IRPs entre 0,1% e 0,5%
Nova impurezaQualificação: >1,0%Buscar redução para <1,0% e qualificação >1,0%Como regra geral, reduzir para <0,5%
Impureza comumComparar com produto de referência≤ RLD ou 1,0%, o que for maiorPode ser justificada pelo nível no comparador
ImunogenicidadeConsiderada na avaliação de incrementos na comparabilidade; estudos in silico/in vitroIntegrada à avaliação de segurança de cada produto; in silico/in vitroDeve integrar a justificativa de não incremento de risco, sem dispor exatamente os métodos

Europa: comparabilidade como eixo

No contexto europeu, adota-se abordagem fortemente baseada em comparabilidade. Em conjunto com a monografia geral da Farmacopeia Europeia para substâncias de uso farmacêutico, consideram-se os patamares de 0,1% para notificação, 0,5% para identificação e 1,0% para qualificação de IRPs.

Entretanto, em medicamentos sintéticos desenvolvidos por comparabilidade com um produto biológico de referência, esses valores não devem ser interpretados isoladamente: a EMA exige avaliação completa do perfil de impurezas entre 0,1% e 0,5%, limite de quantificação de 0,1% para o ensaio de pureza por LC e comparação dos níveis de cada impureza com os respectivos níveis encontrados no produto de referência.

Estados Unidos: lógica produto-específica

A FDA segue lógica igualmente comparativa, mas crescentemente produto-específica. Em vez de um esquema universal para todos os peptídeos, utiliza Product-Specific Guidances (PSGs), que podem estabelecer critérios próprios conforme o produto e seu Reference Listed Drug (RLD).

O PSG de semaglutida de julho de 2026 ilustra a abordagem: recomenda caracterização comparativa do produto proposto e do RLD, utilizando pelo menos três lotes de cada produto e contemplando identidade do ingrediente ativo, estrutura de ordem superior, atividade biológica quando pertinente e perfil de impurezas.

Em apresentações sobre o tema, a FDA adota visão mais mecanística: para novas IRPs, destaca a necessidade de demonstrar que essas impurezas não introduzem sequências com maior afinidade pelo MHC (Complexo Principal de Histocompatibilidade), caracterizadas nesse contexto como potenciais epítopos de células T.

Brasil: Guia nº 83/2025

A ANVISA coloca expressamente que impurezas de produtos peptídicos, geralmente maiores, estão fora do escopo de ICH Q3A/Q3B e ICH M7 — e que, consequentemente, os limites tradicionais de qualificação desses documentos não são diretamente aplicáveis.

O Guia nº 83/2025 introduz abordagem específica para IRPs, e novamente a comparabilidade é central: para medicamentos desenvolvidos por comparabilidade, espera-se a avaliação comparativa dos perfis de impurezas do produto proposto e do comparador. Para a qualificação, devem ser apresentadas evidências — por meio de relatório de avaliação ou justificativa cientificamente fundamentada — demonstrando o não incremento de risco.

O panorama indica que a EMA possui framework geral de thresholds para peptídeos; a FDA opera de maneira fortemente produto-específica via PSGs; e a ANVISA estabeleceu racional próprio para IRPs em desenvolvimento por comparabilidade, bastante similar aos modelos europeu e americano.

As etapas da avaliação in silico de imunogenicidade

  1. Entrada dos dados — representação da sequência e estrutura do peptídeo e da impureza para análise comparativa.
  2. Processamento das sequências de AA — segmentação em blocos adequados (mer) para os endpoints escolhidos.
  3. Predição dos endpoints frente aos alelos humanos — diferentes alelos de HLA reconhecem diferentes peptídeos; por isso, diversidade é essencial no conjunto de dados para estimar o risco imunogênico na população.
  4. Scores de imunogenicidade para os blocos.
  5. Identificação de epítopos de risco — regiões do peptídeo capazes de desencadear reconhecimento pelo sistema imune. São os “alertas de imunogenicidade”.
  6. Comparação IFA × impureza.
  7. Report com análise comparativa e justificativa de especificações.

O que torna uma avaliação in silico robusta?

Os documentos regulatórios não estabelecem uma bateria definida de endpoints. A partir das publicações mais recentes e dos mecanismos envolvidos, sugerimos os seguintes princípios:

  • Representação estrutural adequada para peptídeos e sequência de AA;
  • Estratégias globais e locais, capazes de investigar o desfecho tanto entre moléculas com sequências dissimilares quanto entre sequências similares com diferenças sutis (IFA × impureza);
  • Integração de métodos mecanisticamente complementares, em vez de depender de uma única previsão de ligação: MHC classe II com ligação/apresentação do peptídeo, potencial imunogênico do complexo peptídeo-MHC e processamento antigênico como principais; endpoints secundários quando relevante;
  • Diversidade de alelos HLA — diferentes alelos apresentam diferentes afinidades por um mesmo peptídeo, em diferentes populações;
  • Identificação comparativa de epítopos de risco;
  • Scores de risco na comparação IFA–impureza, ainda que exploratórios, para tornar os resultados interpretáveis;
  • Discussão das incertezas e do peso de evidência sobre o risco imunogênico.

Vale registrar: os documentos regulatórios não determinam que a avaliação in silico utilize obrigatoriamente MHC-I, MHC-II ou ambos. Todavia, para imunogenicidade de peptídeos terapêuticos e formação de ADA, a via MHC-II/HLA-II e células T CD4+ apresenta relação mecanística mais direta — o que justifica tratá-la como principal linha de evidência, com as demais como suporte.

Quais são os gaps regulatórios?

Há arcabouço científico razoavelmente definido para avaliações de imunogenicidade, apoiado por bases de dados e ferramentas sobre epítopos, alelos HLA, ligação e apresentação por MHC, processamento antigênico e reconhecimento por células T.

O principal desafio é outro: não existe critério que estabeleça qual magnitude de diferença no nível de uma impureza — entre produto proposto e produto de referência — pode ser considerada aceitável sob a perspectiva da imunogenicidade, nos cenários de risco baixo, moderado ou alto. Mesmo resultados in vitro carregam alto nível de incerteza quanto à dose-resposta.

A própria FDA reconhece expressamente que não há orientação definindo a extensão das diferenças em atributos de qualidade que permita concluir pela comparabilidade quanto ao risco de imunogenicidade, pois não existe relação quantitativa estabelecida entre a magnitude dessa diferença e o incremento do risco imunogênico.

Para IRPs novas, cuja comparabilidade é inviável, também falta critério para uso dos resultados in silico nos cenários de risco baixo, moderado ou alto — ou árvore de decisão quando ensaios in vitro são realizados, com critérios para traduzir resultados em limites específicos.

Apesar dos desafios, a imunotoxicologia passa a integrar com mais frequência as rotinas de qualificação de impurezas. Novos modelos, estratégias e abordagens certamente facilitarão os avanços regulatórios necessários para garantir medicamentos com padrões aceitáveis de qualidade, segurança e eficácia.

Perguntas frequentes

O que são impurezas relacionadas a peptídeos (IRPs)?

São impurezas que contêm elementos estruturais da sequência do peptídeo sintético, pertencendo elas próprias à classe dos peptídeos. Incluem estereoisômeros, sequências de deleção, truncadas e de inserção, e produtos de reações incompletas ou secundárias. Distinguem-se das impurezas não relacionadas a peptídeos, como reagentes de processo, solventes residuais e impurezas elementares.

Por que o ICH M7 não se aplica a impurezas peptídicas?

Porque peptídeos sintéticos estão total ou parcialmente excluídos do escopo do ICH M7, assim como dos guias Q3A/Q3B e Q6A/Q6B. O racional do M7 é voltado à mutagenicidade de pequenas moléculas; para IRPs, o endpoint de preocupação é a imunogenicidade, que exige metodologia distinta.

Qual o limite de qualificação para impurezas de peptídeos?

Depende da agência. A EMA adota 0,1% para notificação, 0,5% para identificação e 1,0% para qualificação. A FDA opera via PSGs produto-específicos, com notificação em 0,1% e identificação em 0,5%. A ANVISA parte de 0,1% como início da faixa de avaliação e, como regra geral, orienta reduzir novas impurezas para menos de 0,5%.

O que é ADA em medicamentos peptídicos?

ADA (Anti-Drug Antibody) é o anticorpo antifármaco produzido quando o sistema imune reconhece uma estrutura peptídica como estranha. A formação de ADA pode induzir toxicidade e/ou perda de eficácia do medicamento — motivo pelo qual a imunogenicidade é o endpoint central na qualificação de IRPs.

MHC-I ou MHC-II na avaliação in silico?

Os documentos regulatórios não determinam obrigatoriamente um ou outro. Contudo, para imunogenicidade de peptídeos terapêuticos e formação de ADA, a via MHC-II/HLA-II com células T CD4+ tem relação mecanística mais direta, o que justifica tratá-la como principal linha de evidência e as demais como suporte.

O que exige o Guia nº 83/2025 da ANVISA?

O Guia nº 83/2025 introduz abordagem específica para IRPs centrada em comparabilidade: espera-se a avaliação comparativa dos perfis de impurezas do produto proposto e do comparador, e para a qualificação devem ser apresentadas evidências — relatório de avaliação ou justificativa cientificamente fundamentada — demonstrando o não incremento de risco.

Sobre o autor

Carlos E. Matos dos Santos é diretor de inovações in silico da Altox e um dos mais reconhecidos toxicologistas do Brasil. Farmacêutico, Mestre em Saúde Pública (FSP/USP) e Doutor em Toxicologia (FCFRP/USP). Ex-professor de Toxicologia e Avaliação de Risco na pós-graduação em Ciências Toxicológicas das Faculdades Oswaldo Cruz (São Paulo, SP). Ex-pesquisador responsável do projeto PIPE FAPESP iS-Tox (2016–2017), com láureas que incluem o Prêmio João Florentino Meira de Vasconcellos de Inovação Farmacêutica (Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil / Sindusfarma, 2019), premiação no Summit de Inteligência Artificial da FIESP (2024) e indicação ao Lush Prize (2019). Transitando entre avaliação de risco, modelos in silico/IA e toxicologia regulatória, suas contribuições resultaram em livros, capítulos, monografias, artigos científicos, pareceres técnicos e softwares in silico. Pioneiro na temática dos modelos in silico e IA aplicada à toxicologia, lançou a primeira plataforma de modelos in silico da América Latina.

Referências

  1. EUROPEAN MEDICINES AGENCY (EMA). Guideline on the development and manufacture of synthetic peptides. Committee for Medicinal Products for Human Use (CHMP). EMA/CHMP/CVMP/QWP/386716/2021. Amsterdam: EMA, 2024.
  2. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Guia para submissão de estudos de qualificação de impurezas e produtos de degradação em medicamentos. Guia nº 83/2025, versão 1, de 09 de dezembro de 2025. Brasília, DF: ANVISA, 2025.
  3. U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). FDA Revises Draft Product-Specific Guidances for Certain Peptide Drug Products. Silver Spring, MD: FDA, 2026.
  4. PANG, Eric. Immunogenicity assessments in peptides: progress and remaining challenges. FY 2025 Generic Drug Science and Research Initiatives Public Workshop. Silver Spring, MD: FDA, 2025.

Este material contém análises e interpretações dos autores e não representa posicionamento da Altox ou endosso das agências regulatórias, instituições ou organizações mencionadas.

Quer sugerir perguntas para o autor na Parte II deste Pocket Guide? Fale conosco. Veja também como evitar exigências em estudos de qualificação de impurezas.

Artigos Relacionados